“queria tanto que alguém que me amasse por alguma coisa que escrevi”

conheci caio fernando abreu em algum lugar aleatório das estantes das bibliotecas que frequentei no ensino fundamental. eu com certeza não estava procurando por alguém que havia escrito crônicas e contos e romances no século passado e, menos ainda, buscando autores que haviam morrido no ano que nasci. lembro de ainda estar usando uniforme azul de moletom e gorro quando li pela primeira vez as palavras “queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que escrevi”. fiquei perpetuamente tocada pela possibilidade de conseguir um amor por algo que não sabia (e ainda não aprendi) como não fazer.

eu queria muito um amor.

caio

na minha cabeça pré-adolescente, conseguir um amor dependia de muitas coisas que eu não sabia fazer direito. um amor exigia uma coleção de vestidos bonitos, com pelo menos um pretinho básico e vários saltos 15. tinha certeza que pra viver um amor era preciso usar maquiagem (o que eu me forcei a fazer, mesmo odiando), alisar os cabelos (o que eu também fiz) e um cartão-fidelidade de uma floricultura. meu futuro amor merecia flores. eu tinha certeza que, pra ter um amor, era preciso cozinhar bem (a única coisa da lista de pré-requisitos que eu sabia fazer), limpar a casa e ser ótima na cama – eu tinha essa preocupação e, naquela época, a única coisa agitada que eu fazia na cama era acordar de pesadelos com a vilã “zula, a menina azul” do castelo rá-tim-bum.

apesar de toda essa meninice de não entender nada sobre o amor (quem entende?), fiquei esperançosa quando conheci caio. primeiro, porque foi um dos primeiros autores que li que não escreviam como quem dá aulas de hermenêutica. eu sentia que podia ter escrito o que lia – e quanta prepotência! segundo, porque seu desejo se tornou o meu: quando o li, já havia começado a escrever. mais ou menos um mês atrás, encontrei um conto que escrevi há mais de dez anos. é péssimo. mas serviu para recordar com clareza como sempre encontrei uma forma de documentar quaisquer que fossem os sentimentos talhados no meu peito. ou então os presos nessa minha mente que nunca poupou esforços pra inventar o que quer que fosse e coubesse em dúzias de palavras ritmadas, repetidas, listadas e agrupadas em frases longas sem pontos finais. certas coisas nunca mudam.

quando conheci caio fernando abreu, uma revolução aconteceu na minha vida: eu tinha, agora, um autor preferido. e ele, em alguma escala, havia vindo junto com a possibilidade de realização de um desejo meu – que fora dele e do qual me apossei. em suma, entrei na biblioteca atrás de um livro e ganhei dois amores. o de caio e o que me amaria por alguma coisa que escrevi. e caio me foi – e é – um amor, daqueles eternos, porque tenho certeza que ele e eu nos encontramos nas vidas passadas que eu nem acredito que tive, mas gosto de fingir que sim, só pela possibilidade de tê-lo visto em alguma delas.

e comecei a mirabolar sobre esse amor. ele se apaixonaria pelas minhas palavras, tão minhas. se apaixonaria ao me ver escrevendo à mão, ou no computador, ou em guardanapos dos restaurantes que frequentaríamos – e eu não estaria vestindo um único pretinho básico, nem salto 15, nem maquiagem e nem estaria de cabelo alisado, porque agora nada disso era necessário já que eu teria um amor que me amaria pelo que eu havia escrito.

esse meu amor, o que me amaria pelas razões certas, me levaria para tomar um café e entenderia completamente quando eu olhasse para o nada com cara de quem acabou de encontrar um romance entre os quadros da decoração. ele aprenderia a mexer na minha cafeteira para fazer café quando o meu acabasse e ouviria atentamente à minha prova de artigos, textos, contos e romances inteiros se preciso fosse. e ganharia todos. esse meu amor se esconderia por entre as entrelinhas dos meus textos sobre são paulo, seria o “você” de todas as longas cartas pra ninguém que eu passaria a escrever depois de muito ouvir adriana calcanhotto num dia meio feio.

na minha cabeça, esse meu amor que me amaria por alguma coisa que eu escrevi seria daqueles brandos que abraçam apertado sem a menor justificativa e discutem sem levantar o tom de voz. que não maltratam o lado de dentro de peito e dão beijos de amor louco sempre que a vontade bate – o amor que eu imaginei era do tipo que apanha da vontade que bate a qualquer hora do dia.

a coisa mais louca dessa vida é que eu nunca esperaria que, para ter um amor desse tipo e que me amaria por uma coisa que eu escrevi, eu precisaria escrever outras coisas. para que o amor que me amaria pelo o que eu escrevi cumprisse todos os requisitos que eu mirabolei – que eram quase uma soma pior que de salto 15, pretinho básico e maquiagem com cabelo alisado -, eu precisaria escrever coisas calmas, de voz baixa, sem exclamações, com mais pontos finais e, talvez, uma quantidade menor de palavrões ou menções à coisas que me são tão importantes tais quais os nuncas e sempres e todos os outros amores que passaram pela minha vida. pra eu ter um amor daqueles eu precisaria ser uma escritora daquelas.

e sendo uma escritora como sou, os amores que me aparecem exclamam. gritam. berram. são doidos e dizem não e dizem sim e depois juntam o não e o sim num meio de caminho que nem eu nem o amor entendemos e seguimos sem nada entender sem vírgulas usar construindo sentenças longas demais. quem vai cumprir? meu desejo se realizou e me amaram e me amam por alguma coisa que escrevi: caio devia ter avisado que o seu amor vem de acordo com o que você cria e, pasme! it’s both a bless and a curse. caio devia ter avisado que ser um escritor que fala o que quer é sempre ser um amor que tem o peito dilacerado e depois se reconstrói com as palavras que despencam de cada um dos ventrículos átrios veias e moléculas sanguíneas que se espalham pelo chão.

não tem poesia em ser amado pelo que se escreveu – no máximo, você cria alguma poesia desse amor: fria, mórbida, sem muita esperança, com palavras muito duras. ou, quem sabe, se você for um escritor como eu, consiga criar uma poesia com esperança de um próximo amor melhor que, talvez, quem sabe, virá num momento em que minhas palavras serão mais brandas e que, talvez, quem sabe, atrairão um amor que caiba na ideia mirabolante da pré-adolescente que, um dia, pegou um livro de caio fernando abreu na mão e decidiu que só acreditaria no amor se ele se apresentasse dizendo que amou alguma coisa que escrevi.

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