então quer dizer que eu sou a única mulher do rolê?

dia desses fui num bar tomar um chopp com uns amigos, jogar conversa fora e comemorar um corte de cabelo novo que eu enrolei séculos pra fazer. enrolei, primeiro, porque sabia que meu pai não ia ficar lá muito feliz (e a opinião dele importa). segundo, porque tava frio e nuca gelada é oficina da garganta inflamada. e depois, porque eu já ouvia “sapatão!” no meio da rua por ter um dos lados mais curto que o outro – e tenho medo de apanhar no caminho pra casa. maldita sociedade babaca. nem sapatão eu sou (mas sempre agradeço o elogio).

aí, sim, ok, estávamos lá, sentados e felizes tomando cerveja. um amigo abraçou o sofá e o chamou de “meu amor”: deitou eternamente em berço esplêndido apoiando os braços nas almofadas ao seu redor. eu tava de conchinha com uma almofada quase maior que eu. e o terceiro amigo, pragmático e rei da pose como é, manteve até com a coluna reta ao sentar, se você quer saber. chega uma pessoa no bar. olha ao redor. “então quer dizer que eu sou a única mulher do rolê?”.

risos nervosos. gargalhadas altíssimas – a minha, inclusive.

“ah, não força também, né! meu cabelo tá curto, mas não tenho um pau!”, respondi. ela culpou o álcool, o cansaço, a falta de atenção, são paulo. essas coisas que a gente sempre culpa. viramos amigos para sempre. quando você conhece pessoas no bar, no fumódromo ou na fila do banheiro, vocês automaticamente se tornam amigos para sempre. sobretudo se envolver uma piada. ela tinha lá seus 30. salto alto, carreira contábil em plena ascensão e muita história pra contar. “me empresta o isqueiro?” é sempre a melhor forma de começar uma conversa. ela parecia saber. vida, relacionamentos, família, álcool, histórias de álcool e de amor: porque nem o álcool te leva a ser tão bobo quanto o amor. conversamos. dividimos. nos aconselhamos como se nos conhecêssemos há anos. o chopp não tinha tempo de esquentar no copo e a gente já pedia, quase num tom uníssono: “thor, faz mais uma pra gente?”. nem o frio nos impediu de tagarelar e fazer as piadas mais infames do mundo para essas novas pessoas que pareciam estar na nossa vida desde que nascemos.

isso acontece sempre: na fila do banheiro de uma casa brasileira com muito samba, suor e cerveja, fiz amigos pra sempre que perduraram até o fumódromo. comunicadores, todos. mídia, digital, planejamento, atendimento: todo mundo farinha do mesmo saco do universo da publicidade e propaganda.

teve um dia que conheci uma menina que nasceu no mesmo dia que eu – e nosso mapa astral era ferozmente diferente, mesmo assim. já conheci colombianos, sergipanos, um cara que jura que nasceu no acre e que lá, além de existir, é um lugar lindo. já conheci gente que levei pra dormir em casa no mesmo dia e acordei com todos os órgãos no mesmo lugar. conhecer gente é o tempero que a gente precisa pra ter força pra viver os dias. dar risada de piada velha de gente nova é uma das melhores sensações do mundo. só perde pra sensação maravilhosa de conversar sobre tudo isso com os amigos de sempre e, de repente e mais uma vez, aparecer alguém que também sabe a melhor forma de iniciar uma conversa: “me empresta o isqueiro?”.

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