uma crônica de amor louco que nada tem a ver com bukowski

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mas vou colocá-lo aqui mesmo assim

a gente acorda mais tarde do que deveria e acha lugar pra sentar no metrô. escuta uma música que lembra alguém, escuta outra que quase soa como alguém que você nunca deixou de lembrar. olha pra frente, bate o olho num cabelo claro e comprido e lembra daquele outro alguém que amanheceu na sua sacada num dia de céu esquisito. dois passos afrente, o aleatório escolhe uma música que lembra alguém que te tira o sono. seu coração acelera. você pensa que se apaixonou pela pessoa errada e precisa muito contar pra alguém quanto está sofrendo. dessa vez é sério, você sempre diz. é diferente. o jeito que me olha. as coisas que me faz sentir. ok, talvez não seja lá a pessoa que mais vale no mundo, mas vai ser diferente. comigo é. e é claro que não é. e dói, dói muito, dói no peito e você sente a vontade de se contorcer no próprio corpo e ignorar seus discursos e se entregar a um amor muito doido que claramente não foi feito pra ser nada, só uma grande bagunça na sua cara. um amor que nasceu pra durar o marlboro que o maurício pereira fuma na rua às oito da noite, como todo mundo. um amor que não cabe nem em trovoa, que já é por si só um amor muito doido. você escuta trovoa. e, de novo, diz que está amando e que vai ser diferente. vai ser daqueles amores de tomar cerveja fora de hora e discutir amenidades como quem descobre a cura pra todas as mazelas da humanidade (como a arrogância e a impaciência crônica). a gente só ama pra se iludir. a gente só ama pra acreditar que um dia vai ser diferente, que hoje é insuficiente, mas vai deixar de ser já, já. o já, já quase nunca chega e a gente dorme com o peso do mundo no peito. a gente não chora, mas bebe mais do que deveria, canta mais alto do que deveria qualquer canção que traga a sensação de autossuficiência que não existe, beija um gato entre as orelhas, acende um cigarro atrás do outro perto do metrô barra funda, brinca com um cachorro de rua e quase chora quando ele vai embora. a gente entra no metrô e pega um vagão diferente, encara o medo e sobe a rua apé quando já é mais tarde do que a região permite. a dor deixa a gente ter coragem. e aí chega em casa, o dia foi doido, você sabe, o chefe, aquela pilha de coisas, já é fim do mês, tem relatório pra entregar e a lista de pautas parece não ter fim. e nem tem. a gente para tudo, acorda mais tarde do que deveria, acha lugar pra sentar e, quando coloca o fone, a vida, ingrata que é, nos presenteia com uma regravação de arco de luz que entrou no disco novo de filipe catto. você respira fundo: o dia seguinte é sempre melhor, a gente consegue até passar as músicas que machucam. a próxima é um grito. o aleatório escolhe a última música do disco novo, que canta eu quero mais é que você se foda. você não quer que ninguém se foda. a gente só quer que as pessoas fiquem bem, a gente só quer juntar o nosso corpo nossa mente nossa cabeça nossa literatura nossas músicas nossos anseios – a gente só quer juntar nosso nós com alguém que, vai saber, seja como maurício e fume um marlboro na rua como todo mundo. alguém que cante filipe catto, talvez. alguém que não te embrulhe o peito no metrô. te faça esboçar um sorriso, talvez. daqueles de canto de boca, que não dê nem pra disfarçar. e que dure. pelo amor, que dure. pelo menos até a próxima música, se é que eu posso pedir.

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