identidade

eu queria ser da balada, da noite, da vodca quase pura pingada de doce e gelo, do som alto com batidas contínuas e do andar tropeçado da madrugada gelada. queria ser dos que dormem sem meia no pé e planejam viagens homéricas para todo final de ano, mas não teve jeito: nasci pro chão batido de barro ao som de voz e violão.

nasci pra boteco com mesa de plástico (quando muito, madeira) e cerveja gelada no tempo que for. nasci pro samba raiz, sendo ensinada que quem não gosta de samba bom sujeito não é: ou é ruim da cabeça ou é doente do pé. nasci boa de cabeça e boa de pé, mesmo que, pra dançar, só saiba usar os ombros.photo_2017-10-12_19-26-50

nasci pra viagem de carro no meio do dia, pra ir até o mar e agradecer. vim pra andar até onde dá ouvindo que a vida tem sempre razão, pra lembrar que a melhor qualidade que alguém pode ter é a gratidão. me olho no espelho e sei que tô aqui pra mais do que constar: não sirvo pra ser gesso de parede. nasci pra ser alicerce, concreto, arquiteta e construtora da vida que escolhi ter.

escolhi.

queria ser quem consegue viver esperando que a vida aconteça a qualquer custo, com a plena fé de que o acaso vai proteger quando andar distraído. pudera eu ser quem coloca um casaco pela manhã e, das oito às seis, aperta botão, cumpre tarefa, responde e-mails e, ao final do dia, volta pra casa com sensação de trabalho realizado, porque no fim do mês o salário vem.

o salário vem, mas a vida continua e que vida é essa que você precisa acordar cedo e colocar um casaco pela manhã pra apertar botões das oito às seis?

a vida que escolhi pra mim vai além, porque a pele é muita pra só servir pra sentir frio e ser coberta com casaco. a pele envolve todo o corpo e o corpo precisa sentir.

queria ser quem sente só frio, mas nasci pra sentir tudo. nasci pra sentir na pele frio, calor, arrepio, calafrio, abraço, toque do outro, meu próprio toque. nasci com uma pele que não aceita ser a mesma e, de quando em quando, descama e troca e envelhece e se rejuvenesce sozinha com o uso contínuo da vida como verbo de ação.

não nasci pra batida eletrônica alta nem pra virar madrugada trançando as pernas, porque na madrugada que tentei acabei parada na porta do metrô com um livro do caio fernando abreu que dizia que alguém vinha e o puxava e ao invés de tirá-lo do fundo do poço o afundava ainda mais e quem o puxava era aquele ser icônico e, agora sim, homérico que, assim como esse texto, minhas constantes, minhas verdades e a minha vida, não acaba nem assim nem agora e nem aqui

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